Fato Nº 57

O alfabeto armênio era usado para escrever turco

Eles são muitas vezes chamados de os 36 soldados – um exército de letras que carregam identidade armênia. O alfabeto, afinal de contas, é a marca visível de uma língua e cultura distinta. A história tradicional do alfabeto envolve visões divinas e a tradução da Bíblia só acrescenta à sua referência santa entre o povo armênio.

Esse sentimento de posse e exclusividade pode, porém, ser um pouco abalado quando as relações armeno-turcas vêm à luz. A língua turca não tem um alfabeto de originalidade própria. Ao invés disso, uma forma modificada de letras árabes foi usada para escrever o idioma turco da era otomana, e entre as mudanças que ocorreram quando a República da Turquia foi fundada na década de 1920 estava a reforma da linguagem, incluindo todo um alfabeto novo – uma versão modificada o alfabeto latino (as mesmas letras que o Inglês usa; veja nosso fato sobre um dos principais arquitetos desta reforma).

Desde o início dos anos 1700, no entanto, o turco já estava sendo escrito usando um outro conjunto de letras, as armênias, até cerca de metade do século XX, sendo publicadas em lugares distantes do Império Otomano como Veneza e Boston. Esta era uma prática dos armênios de língua turca, fossem aqueles que tinham perdido a sua própria língua ou aqueles que achavam muito mais vantajoso escrever turco no formato armênio, em oposição à escrita árabe, muito mais complicada.

Na verdade, a maneira que o turco moderno está escrito coincide muito mais com o armênio – com letras principalmente separadas para sons separados, sendo escrito da esquerda para a direita – ao invés das modificações pesadas, letras juntas, e escrita da direita para a esquerda da íngua árabe. Houve até propostas para adotar o alfabeto armênio como a escrita oficial do império turco otomano, no período final do império, especialmente tendo em conta que a elite turca também estava familiarizando com esse sistema de escrita.

Mais do que apenas um segundo grupo de letras, o armeno-turco poderia ser descrito como uma expressão cultural – um artefato dos armênios de língua turca, que sobreviveu pelo menos por uma geração depois do genocídio. Entre os primeiros romances em turco estava um em armeno-turco: Akabi Hikayesi (“A História de Akabi”) por Hovsep Vartanian que envolvia personagens armênios, temas armênios e letras armênias, mas a língua turca. Muitos livros de oração do século XIX foram publicados em armeno-turco, bem como – mais comumente por grupos missionários americanos – muitos armênios praticavam a sua fé cristã usando o idioma turco para estudar a Bíblia e orar. Houve uma série de jornais armeno-turcos durante essa época, e até mesmo por décadas depois do genocídio. Antigos sinais do uso de letras armênias pelos turcos ainda podem ser encontrados nas ruas de Istambul hoje. A última vez que um livro armeno-turco foi publicado foi em Buenos Aires em 1968.

O alfabeto armênio também foi usado anteriormente, durante o século XVII, para escrever uma outra língua turca, Kipchak, que foi usada no que é hoje a Ucrânia e Polônia. As comunidades armênias da região adotaram essa língua local sobre algumas gerações e criaram uma escrita que funciona exclusivamente para Kipchak do formato armênio, também amplamente sob a influência da língua armênia.

Ambos armeno-turco e armeno-kipchak usam a pronúncia do armênio ocidental como base para a escrita, indicando o caminho da diáspora que foi tomado a partir da planície do Ararat onde Mesrop Mashtots viveu e trabalhou para Constantinopla e pontos mais a oeste e norte.


Referências e Outras Fontes

1. St. Nersess Armenian Seminary. “Armeno-Turkish: Betrayal or Blessing?”, September 28, 2005
2. Armenian Research Center, University of Michigan-Dearborn and the Alex and Marie Manoogian Museum, Southfield, joint exhibit. Celebrating the Legacy of Five Centuries of Armenian-Language Book Printing, 1512-2012. University of Michigan-Dearborn, 2012
3. Rev. Andrew T. Pratt. “On the Armeno-Turkish Alphabet”, Journal of the American Oriental Society, Vol. 8, 1866, pp. 374-376
4. Rouben Paul Adalian. Historical Dictionary of Armenia. Scarecrow Press, 2010, p. 264
5. Memorials: Written Monuments of Turkic Languages
6. Wikipedia: “Vartan Pasha


Artigo Original

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Legenda da Imagem

O início do Pai Nosso (“Pai nosso que estais no céu…”) em armeno-kipchak, que data do século XVII.


Atribuição e Fonte

[Public domain], via Wikimedia Commons


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