Fato Nº 20

Nomes de divindades do Panteão Armênio ainda são encontrados hoje

O panteão dos armênios pagãos consistia tanto de deuses e deusas locais, como de divindades que foram adotadas a partir de outras culturas da vizinhança. Como é de se esperar, os fenômenos naturais eram adorados, como o sol e a lua ou as montanhas e rios, ao passo que os conceitos mais abstratos foram deificados, tais como beleza ou sabedoria.

Um membro especial do templo dos antigos armênios era o deus da escrita, Tir (Dir em armênio ocidental). O fato de que ele era adorado oferece um argumento interessante para apoiar a idéia de que os armênios tinham uma cultura escrita antes da criação do alfabeto armênio no século V, cem anos depois da chegada do Cristianismo.

Embora muito da antiga cultura armênia foi posta de lado com o domínio da nova religião, ainda há alguma influência pagã atualmente, um reflexo pode ser encontrado nesse mesmo deus, Tir, referido como o “escritor” ou “Grogh” (“Krogh” no armênio ocidental). Tir foi encarregado de gravar boas e más ações e, em seguida, a passagem das almas para o além. Hoje, não é incomum na Armênia ouvir o mal dizer: “Groghe tani!” – “Que o escritor o tire!”.

Outra expressão comum na Armênia, além de jurar a Deus ou jurar aos seus ancestrais, por exemplo, é a de jurar pelo sol de um pai (“Hors arev!”). O uso desta frase pode ser outra indicação de culto a objetos, em tempos antigos, ou talvez a espíritos guardiões.

Curiosamente, a palavra em armênio para divindades pagãs é uma negação gramaticalmente direta da palavra “Deus” – “Astvats” ou “Asdvadz” torna-se “chastvats” ou “chasdvadz”, que significa “não-Deus”, no contexto cristão.

Não que o cristianismo tenha ficado completamente livre de todos os costumes pagãos entre os armênios. Na verdade, a Igreja Armênia ainda aceita oferendas de animais sacrificados como uma marca de dar graças ou de esmola, por exemplo a prática conhecida como “matagh” (“madagh”), que é conhecida por ter existido desde os primeiros dias do cristianismo. Outros costumes que acredita-se que são datados de tempos pré-cristãos, mas estão de alguma forma ligados à religião moderna na Armênia, incluem o ato de jogar água um a outro durante a Festa da Transfiguração em julho (conhecido em armênio como “Vartavar”) e saltos sobre fogueiras durante a Festa da Apresentação de Cristo no Templo, realizada em fevereiro (também conhecido como Candelária (“Tyarnuntarach” ou “Dyarnuntarch” em armênio).

Muitos nomes dados entre armênios hoje são os nomes dos antigos deuses e deusas, como Aramazd, Vahagn, Anahit e Astghik, para mencionar apenas alguns.

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Resposta de um de nossos leitores: (Originalmente em Inglês)

A prática de dar nomes de divindades pagãs para crianças armênias é um costume que começou no século XIX e continuou no século XX. Eu acho que é possível verificar no Dicionário Hrachya Acharyan de nomes pessoais. Normalmente, exceto as próprias divindades, nenhuma outra pessoa armênia com esses nomes é mencionada em toda a Idade Média. O Ara mais antigo que eu já vi em fontes históricas foi um violinista em Constantinopla nascido em 1895. O nome Astghik é mencionado um pouco mais cedo, como o nome artístico de uma atriz famosa, também em Constantinopla. Eu acho que é um indicador de como os armênios deixaram de ver-se como os seguidores de uma instituição religiosa (a Igreja Apostólica Armênia) e passaram a membros de um “Kulturnation” – conforme definido por pensadores alemães do período, especialmente Johann Gottfried Herder.

Este é um tema importante, e pode ser objeto de um bom artigo. Se houver registros de batismos nas igrejas armênias em Constantinopla / Istambul, que seria um bom lugar para começar. Caso contrário, a imprensa periódica é a nossa próxima fonte importante. Embora eu não possa afirmar isso incondicionalmente, é provável que essa tradição de dar nomes pagãos a alguns dos recém-nascidos armênios começou mais cedo em Constantinopla que nas províncias de armênios no Império Otomano.

Dr. Ara Sanjian
Diretor do Centro de Pesquisa Armênio
Professor Associado em Armênio e História do Oriente Médio
Universidade de Michigan-Dearborn

A equipe do Projeto 100 Anos, 100 Fatos gostaria de agradecer ao Dr. Sanjian por seu feedback.

Quaisquer comentários, sugestões, reclamações, dúvidas ou elogios dos leitores, que sejam razoáveis, pesquisadas, e reações respeitosas são bem-vindos em 100years100facts@gmail.com (inglês) contato@estacaoarmenia.com.br (português) ou através das redes sociais.


Referências e Outras Fontes

1. Mardiros H. Ananikian. “Armenian Mythology”, in The Mythology of All Races, Volume VII. Marshall Jones Company, 1925
2. Hacikyan, Basmajian, Franchuk, Ouzounian. The Heritage of Armenian Literature, Vol. 1: From the Oral Tradition to the Golden Age. Wayne State University Press, 1999, pp. 63-73
3. Vahan M. Kurkjian. A History of Armenia. AGBU, 1958, pp. 300-310
4. Zabelle C. Boyajian. Armenian Legends and Poems. Columbia University Press, 1916, pp. 126-131
5. The Armenian Church, Mother See of Holy Etchmiadzin. “Offering (Matagh)
6. Wikipedia: “Armenian mythology


Artigo Original

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Legenda da Imagem

Representação moderna de Vahagn Vishapakagh – Vahagn o matador de dragões, um herói da antiga lenda armênia e um deus do panteão armênio.


Atribuição e Fonte

Por Gegart at ru.wikipedia [CC-BY-3.0], from Wikimedia Commons


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